O enigma da existência.

 

 

 

 “A única viagem verdadeira seria não a de viajar para 100 lugares diferentes com o mesmo par de olhos, mas de ver o mesmo lugar com 100 pares de olhos diferentes”.

                                                                                                            Proust.

                                                                       

 

O ser humano é um enigma fascinante… A sua inteligência atual não consegue alcançar e decifrar a questão básica da sua própria origem. O seu conhecimento sobre si mesmo é ainda muito precário. Por incrível que pareça, ele é mais adiantado do que a sua concepção sobre si mesmo.

 

Em outras palavras, ele não sabe e nem consegue imaginar como ele surgiu, como foi criado, e se ele tivesse que criar um ser semelhante, a partir do nada, não saberia nem por onde começar. Ou se sabia, esqueceu-se e não está ao seu alcance atual, fazê-lo, conscientemente.

 

E, no entanto, através do ato sexual, ele se reproduz, cria outros seres semelhantes, sem muito esforço, ou melhor, num ato espontâneo, voluntário, quase inconsciente, como num passe de mágica. O ser humano é, pois, um ser mágico, automático, como o é todo o Universo.

 

Ele é a prova irrefutável do milagre da vida e de toda a criação, que tanto busca, mas que, obstinadamente, se recusa a reconhecer. Curiosamente, o Homo Sapiens moderno não acredita em si mesmo e muito menos em milagres

 

E para não expor esse seu profundo desconhecimento sobre si mesmo --- a que veio, de onde veio, para onde vai? --- e por não querer admitir a existência de um ser mais inteligente e poderoso, um Criador para todas as coisas, ele costuma atribuir a esse negócio chamado acaso, a responsabilidade pelo seu aparecimento e permanência no Universo.

 

Quando o ser humano faz isso, ele está inconscientemente admitindo que o Universo não tem nenhuma finalidade. Todo esse sistema magnificamente estruturado, coordenado e mágico, foi feito “sem querer”, “ao acaso” e, portanto, sem nenhum propósito. Admite também que a sua inteligência, essa que usamos no nosso dia a dia, ainda perde de goleada dessa entidade abstrata, poderosíssima, mais inteligente, chamada acaso, que em matéria de criação, está anos luz à nossa frente...

 

Mas nem por isso, o ser humano deixa de existir e viver. E, curiosamente, pensar… que é o mais inteligente de todos… A única inteligência que existe.

 

 

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Quando garoto, e até recentemente, ficava a imaginar aonde eu iria parar se, montado numa nave espacial com combustível infinito, me distanciasse da Terra para sempre. Àqueles que me acenavam com a minha morte, eu perguntava, aonde iria então parar o meu cadáver… e, sem nenhuma resposta satisfatória, a estória acabava por aí.

 

Mas a indagação sempre permaneceu…

 

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Não é pequeno o número de pessoas que defendem a tese que você não precisa da inteligência para botar ordem em algo (agir inteligentemente). Se você pegar um baralho desses de 56 cartas, todas elas desordenadas e ficar misturando-as aleatoriamente, cedo ou tarde você vai se defrontar, ao acaso, com um baralho todo ele ordenado. O mesmo aconteceria com um quebra cabeças, mesmo que fosse um desses de mais de 1000 peças. Basta você dar tempo ao tempo.

 

Chama-se a isso de tentativa e erro.

 

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Parece razoável que o acaso, com o tempo, seja capaz de gerar --- ao acaso --- dentre as infinitas respostas para um dado problema, aquela que seja a resposta correta. Mas mesmo que algo seja capaz de produzir todas as respostas possíveis para um dado problema, sejam elas certas ou erradas, não quer dizer que o problema esteja solucionado. Ainda temos que ter algo, uma inteligência que decida qual delas é a resposta adequada dentre todas as possíveis combinações.  O acaso, a ausência de ordem --- o nada --- certamente não saberia fazê-lo.

 

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Fica, portanto, algumas perguntas em aberto: Quem criou este baralho? Quem vai ficar embaralhando este baralho por tanto tempo? De onde surgiu o observador, a testemunha, com inteligência suficiente para dizer: --- Pode parar que agora o baralho está ordenado? Até o processo de ordenar um simples baralho requer certa inteligência, uma razão para julgar.

 

Para a ordem existir, são necessários, além do objeto em si (o baralho), uma ação (o embaralhar) e um observador, uma percepção (para constatar que a ação ocorreu e o baralho está ordenado).

 

Uma consciência, como você, enfim. Infelizmente devo lhe dizer que a sua consciência não se qualifica para este papel, o de observador do processo de criação do Universo, simplesmente porque, naquele tempo, você ainda não existia. Ou existia?

 

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Com o tempo, passei a achar que o meu cadáver itinerante alcançaria os limites do Universo físico, os ultrapassaria e a partir daí, ele navegaria a bordo da espaçonave rumo ao nada. E no nada permaneceria. Seríamos, meu cadáver e a espaçonave cercados de nada por todos os lados.

 

Foi quando me dei conta que eu me sentia perfeitamente confortável com a idéia de que o nada era infinito. Como diria Millôr Fernandes, “Só uma coisa preenche tudo --- o nada”.

 

O nada contém o tudo. O nada é a referência.

 

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Mas quem estaria lá para testemunhar? 

 

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Digamos que o acaso fosse perfeitamente capaz de criar a vida através dessa geração espontânea de infinitas combinações durante um tempo infinito. Mas quem seria o responsável pela manutenção dessa configuração selecionada como a mais adequada, ou seja, pela reprodução, um processo completamente previsível, repetitivo, uma antítese do que se poderia chamar de acaso? Não seria o acaso, seria?

 

Então teríamos o acaso atuando durante uma fase do processo e depois, um algo mais que não sabemos o que seja, --- poderíamos chamá-la de inteligência? --- assumindo o controle daí em diante? Esta idéia me agrada, e muito!

 

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Bem, neste saite discutimos tudo isso. Estamos particularmente interessados nas seguintes questões:

 

-         Quem somos?

-         De onde viemos?

-         Para onde vamos?

-         Por que estamos aqui?

 

Através do entendimento destas questões, pretendemos viver mais conscientemente, buscando sempre uma melhoria na nossa presente existência terrena. Como você deve saber, sem a oportunidade prática de uso, qualquer conhecimento é inútil.

 

 

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Os artigos deste saite são intencionalmente curtos, pois se fossem muito longos, você não iria lê-los. Busquei dar ao leitor uma visão de conjunto e não me preocupei muito com detalhes ou precisão científica. A linguagem é simples, coloquial, para facilidade de leitura e entendimento. O uso intensivo de metáforas e referências é proposital, visando facilitar a compreensão. 

 

 

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Tudo que está aqui descrito, em algum lugar já está escrito. Nada disso é novidade. Para a sua própria proteção, o leitor é gentilmente convidado a exercer o seu melhor discernimento em busca da sua verdade e não aceitar nada que não seja do seu perfeito entendimento e conforto intelectual.

 

Como existe muito lixo por aí, se você não se sentir bem com qualquer proposição, recuse-a.

 

Mas tenha a mente aberta e não deixe de analisar tudo à luz da razão, pois a lógica é a ferramenta que utilizamos, o tempo todo, para demonstrar os nossos pontos de vista. Acredito mesmo que não exista outra forma de fazê-lo.

 

 

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O leitor está convidado, a partir de agora, a fechar o seu par de olhos habituais e olhar para o mundo com um outro par de olhos, e buscar a realidade maior. A sua mente corre o risco de nunca mais retornar à sua condição inicial como nos ensina Oliver Wendell Holmes Jr, mas a viagem é por demais fascinante para não se correr o risco.

 

 

Sada Hayashi.

Rio de Janeiro, 11 de março de 2003.

 

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